Pesquisa-seminário Neoconcretistas + Cinéticos
Introdução
Ao longo do século XX, a arte passou por transformações profundas. Muitos artistas começaram a questionar a ideia tradicional de obra de arte como algo fixo, estático e destinado apenas à contemplação silenciosa em museus e galerias. Em vez de considerar a obra como um objeto encerrado em si mesmo, alguns criadores passaram a explorar novas relações entre arte, corpo, espaço, tempo e participação do público.
Nesse contexto, duas figuras se destacam de maneira decisiva: Lygia Clark, no Brasil, e Julio Le Parc, artista argentino radicado na França. Embora atuem em contextos diferentes, ambos propõem deslocamentos importantes no modo de entender a arte.
Lygia Clark desenvolve trabalhos que superam a noção de escultura tradicional e levam ao conceito de não-objeto, especialmente na série Bichos. Já Julio Le Parc é um dos grandes nomes da arte cinética, linguagem artística baseada no movimento real ou ilusório, na luz e na ativação perceptiva do espectador.
Série Bichos
Lygia Clark (1920–1988) é uma das artistas brasileiras mais importantes do século XX. Sua trajetória parte da pintura geométrica e avança para experiências cada vez mais interativas, sensoriais e terapêuticas. Entre suas produções mais conhecidas está a série Bichos, iniciada em 1960.
Os Bichos são estruturas metálicas articuladas por dobradiças. Formados por placas geométricas móveis, podem ser manipulados pelo participante, gerando inúmeras posições e configurações. O nome “Bichos” sugere algo vivo, orgânico e mutável. Apesar de feitos em metal, comportam-se como se tivessem movimento próprio.
Por que os Bichos são considerados Não-Objetos?
Os Bichos não funcionam como esculturas tradicionais, pois não possuem uma forma única e definitiva. Eles se transformam conforme a ação de quem interage. Isso faz com que a obra deixe de ser um objeto estático e passe a ser uma experiência em processo.
● Dependem da participação humana- Sem o toque e a manipulação, a obra permanece em potência. O participante ativa suas possibilidades.
● Não têm forma final- Cada movimento cria uma nova organização espacial.
● Rompem a contemplação passiva- O espectador deixa de apenas olhar e passa a agir.
● Criam relação entre corpo e matéria- Quem move a peça percebe resistência, peso, equilíbrio e ritmo.
● A obra acontece no tempo- Ela se revela progressivamente durante a interação.
Particularidades materiais dos Bichos
A escolha dos materiais por Lygia Clark não é neutra. Ela participa diretamente da experiência estética.
● Alumínio
● Aço
● Dobradiças
● Estruturas geométricas articuladas
O metal transmite solidez e permanência, mas ao mesmo tempo se torna móvel por causa das articulações. Isso cria um contraste interessante entre rigidez e flexibilidade. As chapas refletem luz e modificam a aparência da peça conforme o ambiente. Além disso, o peso influencia a maneira como o participante manipula a obra. Assim, o material não é apenas suporte: ele determina sensações e comportamentos.
Particularidades Sensoriais em Lygia Clark
Uma das maiores contribuições de Lygia Clark foi colocar o corpo no centro da experiência artística.
● Dimensão tátil - O toque deixa de ser proibido e passa a ser essencial).
● Dimensão corporal- O participante precisa usar mãos, braços e postura para mover a obra.
● Dimensão visual- As formas mudam constantemente.
● Dimensão sonora- As dobradiças produzem ruídos mecânicos sutis.
● Dimensão temporal- A experiência se constrói aos poucos, em sequência.






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